Habilidades de Vida e a prevenção ao consumo de substâncias psicoativas

De acordo com Botvin (2004) e Sloboda (2004) há evidências empíricas que os programas de prevenção, como o de Habilidades de Vida, baseados no conhecimento, identificação dos fatores de risco e desenvolvimento de habilidades psicossociais relacionadas às drogas apresentam maior eficácia. Um dos exemplos de utilização do modelo de habilidades de vida para a prevenção ao uso de substâncias psicoativas, com maior sucesso e tempo de aplicação é o trabalho de mais de 20 anos realizado por Botvin e colaboradores, da Universidade de Cornell, Estados Unidos. Tendo como palco de ação a escola, o programa denominado Life Skills Training (BOTVIN; 1998, 2004) é direcionado a todos os alunos da instituição, sendo composto por três eixos principais:

1º - Desenvolvimento de habilidades de controle pessoal: São desenvolvidas competências de tomada de decisões e resolução de problemas, pelas quais se espera que o adolescente se torne competente na identificação dos problemas, definição de metas, estabelecimento de soluções e avaliação das consequências dos seus atos.

É fundamental que neste primeiro momento do trabalho se ensine aos adolescentes como estabelecer metas realistas, assim como submetas, indicando os benefícios em avaliar e recordar os progressos já alcançados, bem como lidar com o sucesso e mesmo com o fracasso ao longo da vida.

É também importante que neste primeiro momento da intervenção se favoreça ainda o desenvolvimento de habilidades como lidar com o estresse, através do ensino de técnicas de relaxamento, além de lidar com sentimentos de raiva e frustração, as quais contribuirão para a redução de reações impulsivas.

Além disso, os jovens devem ser estimulados a realizarem um projeto de autoavaliação, no qual poderão pensar sobre o que gostariam de melhorar ou mesmo transformar neles mesmos.

Segundo Botvin (2004), os objetivos do ensino desses princípios básicos de comportamento pessoal estão diretamente relacionados com a elevação da autoestima.

2º- O segundo eixo a ser trabalhado junto aos jovens são as competências utilizadas na interação social:  inicialmente é importante enfatizar o treinamento da habilidade de comunicação eficaz, construindo junto com os adolescentes maneiras eficazes de se evitar mal-entendidos, conhecer novas pessoas e estabelecer e manter amizades.

Além do mais, o ensino de técnicas que auxiliem o jovem a iniciar e manter uma conversa, bem como finalizá-la de maneira agradável, dar e receber cumprimentos, além de como realizar uma abordagem de indivíduos do sexo oposto.

Os jovens também são estimulados a fazer valer seus direitos, realizando solicitações e recusando pedidos desprovidos de razão. Um exemplo de exercício a ser utilizado seria a criação de uma situação, como envolvendo a compra de um aparelho eletrônico que não esteja funcionando. Pode-se criar um cenário, no qual o jovem possa se dirigir até o “vendedor”, requerendo seu dinheiro de volta ou o conserto do aparelho, contribuindo para que o adolescente desenvolva uma comunicação eficiente e assertiva.

3º - Aumentar o conhecimento dos adolescentes concernente às drogas, além de promover o desenvolvimento de habilidades de resistência ao consumo e às influências sociais, como mídia, família e amigos.

O foco da intervenção passa a ser as consequências do uso de drogas, as expectativas dos jovens com relação às substâncias, os prejuízos sociais decorrentes do consumo, sendo realizados, por exemplo, exercícios em classe, que demonstrem os efeitos fisiológicos imediatos após o uso.

Botvin (2004) ressalta que o programa é realizado no período de três anos, tendo início preferencialmente com os alunos provenientes da 7ª série do ensino fundamental. Nos Estados Unidos, durante o primeiro ano, são realizadas 15 sessões, com aproximadamente 45 minutos de duração. Nos dois anos seguintes, são promovidas 10 sessões de reforço com os adolescentes da 8ª série e no último ano são feitas 5 sessões com os alunos já no 1º ano do ensino médio.

A OMS (1997) reitera que o ensino de habilidades de vida deve ser realizado mediante um processo de aprendizagem social e dedutivo, que possibilite ao jovem descobrir por ele mesmo, observando, estabelecendo conexões entre os conceitos e a realidade que os rodeia, sendo capaz de colocar em prática o que está sendo aprendido, além de receber retroalimentação dos adultos e do grupo de pares. Trata-se de um processo mais dinâmico que a simples transmissão de informação e exige oportunidades de prática ao longo do tempo.

Botvin (2004) argumenta que as habilidades de vida podem ser consideradas importantes fatores de proteção contra o uso de substâncias psicoativas. Segundo o autor, as habilidades são protetoras, uma vez que favorecem o aumento do bem-estar psicológico, contribuem para a redução das expectativas positivas do jovem frente às drogas, e ainda auxiliam no aumento da comunicação assertiva. O autor ainda considera que o desenvolvimento de um maior conjunto de habilidades de vida pode promover efeitos de resiliência entre os jovens, contribuindo assim para o menor consumo de álcool, tabaco e outras drogas.

Fontes:

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812008000300009

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130667&pid=S1808-4281200800030000900002&lng=pt

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=1130668&pid=S1808-4281200800030000900003&lng=pt

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Brasil