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Neury Botega
Psiquiatria

Depressão ou Tristeza?

Como saber se a tristeza é, na verdade, um caso de depressão? Tristeza e depressão são iguais?

Perder um parente ou amigo querido, ser demitido de um emprego. Esses motivos podem deixar qualquer um triste. Para leigos, tristeza e depressão podem ser sinônimos, mas não são, e é importante saber as diferenças.

Também é importante compreender a relação entre depressão e uso de drogas, para direcionar medidas interventivas mais eficazes, já que é preciso considerar que esses problemas estão mutuamente interligados. Assim, ao mesmo tempo que a depressão pode levar à dependência química, a dependência também pode influenciar o surgimento de quadros depressivos.

Em qualquer tempo, a depressão é uma doença preocupante e ligada a mais da metade das tentativas de suicídio. Muitas vezes é silenciosa e não percebida pela própria pessoa ou por familiares e pessoas próximas.

No momento atual, tem se tornado cada vez mais preocupante devido ao enorme número de perdas que as pessoas vêm sofrendo durante a pandemia causada pelo Coronavírus. Mas o suicídio ligado a depressão não é novo....

Para falar um pouco sobre as diferenças entre tristeza e depressão, o 7º Congresso Internacional Freemind 2022 convidou o Dr. Neury José Botega, Psiquiatra doutorado em Saúde Mental pela Universidade Estadual de Campinas e pós-doutorado no Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres.

Na Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP obteve os títulos de Professor Livre-Docente e de Professor Titular. Sua produção científica relaciona-se a três temáticas: Interface entre a Psiquiatria e outras especialidades médicas, Transtornos Afetivos e Prevenção do comportamento suicida. Tem vários livros publicados e, entre eles: Crise Suicida; A Tristeza Transforma, a Depressão Paralisa. Atualmente trabalha em clínica particular o e dá cursos, palestras e consultoria na área de saúde mental.

Dr. Neury é membro da ABEPS – Associação Brasileira de Estudos e Prevenção ao Suicídio, tendo já sido Secretário e Tesoureiro nas gestões de 2015 a 2020.

Sua palestra está disponível em https://bit.ly/3PQ3wdt e é possível fazer o download de sua apresentação no site do Freemind.

 

Conheça um pouco do que foi falado pelo especialista sobre Depressão e Tristeza:

Na Idade Média – 400 anos antes de Cristo, Hipócrates – considerado o pai da medicina – acreditava que o baço produzia uma substância chamada Bile Negra (hoje já se sabe que não!).

Em grego, Bile é ‘Cole” e Negra é “Melana”. Daí surgiu a palavra Melancolia. Na época, não se falava em Depressão.

Depressão é o termo moderno para o que Hipócrates chamou de Melancolia.

Já no Renascimento – século 17, um livro escrito por Robert Burton chamado de “Anatomia da Melancolia” trazia a seguinte frase: “Se há inferno neste mundo, ele se encontra no coração do homem melancólico”.

Essa frase quebra todo aquele conjunto de crenças da idade média e é como se nos dissesse: “Existe inferno? Existe... É o inferno do demônio? Não! É o inferno que está dentro de você!”.

Dizer que uma pessoa é melancólica é algo ruim? Melancolia, como temperamento, pode significar uma pessoa triste, mais negativista... mas também pode ser uma pessoa reflexiva, analítica. Não é só defeito!

Têm pessoas que desde que nascem são alegres, sorridentes, brincalhonas... outras são mais circunspectas, observadoras, caladas, tristes – às vezes. Em alguns casos, essa tristeza se transforma em um mau humor crônico, nada está bom, a pessoa só reclama, fica o tempo todo irritadiça, rabugenta e isso é chamado de distimia – se confunde com a personalidade, mas é uma forma de depressão crônica.

A partir de 1980, alguns psiquiatras americanos se reuniram e criaram um catálogo de doenças, com critérios, para tentar uniformizar a linguagem dos psiquiatras – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM).

Esta é uma publicação muito importante, mas que faz tudo parecer receita de bolo: para se dizer que uma pessoa tem depressão, obrigatoriamente, ela tem que ter o humor deprimido ou ela tem que ter a perda de interesse em coisas que antes ela curtia.

Por exemplo: uma pessoa fanática por seu time de futebol, que não perdia um único jogo, de repente não quer mais assistir a uma partida na TV, se esconde, não quer mais saber de nada... Perdeu o prazer em uma coisa que antes lhe dava muita satisfação. Ela não está triste... ela está como que anestesiada, sem conseguir ver graça nas coisas.

Se questionada se está triste, ela responde “Não, eu não estou triste. Eu estou diferente, está tudo sem graça, não tenho nenhuma expectativa boa em relação às coisas. Eu não era assim...”

Essa é uma frase importante na depressão: diferente de tristeza, a pessoa se descreve diferente, estranha. Ela chega a se questionar se está ficando demente, porque vai perdendo a memória, não consegue se concentrar, o raciocínio fica travado e ela fica paralisada com a depressão.

Diferente da depressão, a tristeza não paralisa e nos coloca numa posição reflexiva.

Muitos pacientes chegam no consultório do psiquiatra e alegam não ter nenhum problema sério, nenhuma perda significativa e, mesmo assim, se sentem constantemente tristes, abatidas e não conseguem entender a razão.

É importante saber que a depressão pode vir, mesmo quando não há uma perda na vida da pessoa, quando ela parece estar no seu melhor momento, quando ela está se sentindo mais laboriosa e ativa.

Se ela estivesse triste, era só “engatar uma primeira e seguir”. Já na depressão, esses sentimentos são como pesos de pedra... a pessoa sente uma imobilidade afetiva e intelectual.

Pessoas tristes não pensam em suicídio e, se pensam, sentem medo – o que é um bom sinal!. Pessoas deprimidas pensam... pensam, não sentem medo e muitas vezes procuram na internet como se matar – isso é um mau sinal e indica um grau maior de risco de suicídio.

A tristeza dura alguns dias e passa. A depressão dura semanas, meses!  Na maior parte do tempo a pessoa deprimida não se anima; se chegar a ir numa festa, por exemplo, e se a festa for boa, a pessoa se sente ainda pior... Ela piora se tentar se alegrar ou se alguém tentar alegrá-la.

Isto faz com que as pessoas que convivem com um deprimido sintam-se impotentes e cheguem até a sentir raiva de quem está com depressão.

A pessoa deprimida sente que mudou o prazer e o afeto e fica mais irritada. Às vezes, a depressão não vem com tristeza – vem com braveza, irritabilidade, aumento de consumo de bebida alcoólica “para se acalmar” (entre aspas, não é?) e muito negativismo.

O seu comportamento fica inusitado, ríspido, inseguro e a pessoa fica ressentida com a alegria dos outros. Em outras vezes, quem sofre é corpo: pessoas idosas, às vezes, ficam mais caladas, com dores ou com outros sintomas físicos, gosto ruim na boca, algo “esquisito” no estômago, não participam mais das atividades.

Também há sentimentos de inibição e bloqueio: a pessoa se sente emburrecida e paralisada, sem conseguir dar andamento nas coisas.

Então, a depressão vem acompanhada das seguintes características: estranheza de si, mudança nos afetos e prazeres, negativismo, comportamento inusitado, sofrimento do corpo, inibição e bloqueio.

 

Importante falar: A DEPRESSÃO LEVA MUITAS PESSOAS AO SUICÍDIO!

 

O que podemos fazer, então? ROC. R de risco, O de ouvir e C de conduzir.

 

Repare no RISCO

O passo é a própria suspeita do risco de uma pessoa vir a se matar.

Com sensibilidade, devemos perguntar sobre ideias de morrer, de se matar...

Geralmente não percebemos que uma pessoa está pensando em se matar porque simplesmente não queremos perceber, porque dói perceber, porque não sabemos o que fazer...

Mas precisamos reparar a mudança de comportamento em nossos amigos, colegas de trabalho, nossos parceiros e nossos filhos. Precisamos reparar no risco!

 

Ouvir

O 2º passo é ouvir com atenção e respeito, sem julgar, sem recriminar e nem se apressar em preleções morais ou religiosas.

“Chacoalhões morais” como, por exemplo “Você tem que reagir”, “Só depende de você”, “Olha quanta coisa bonita na sua vida”, de nada adiantam. O melhor que podemos fazer é ouvir a pessoa em silêncio, sem julgar. Ouvir com atenção, dar 10 minutos - que seja – do seu tempo para a pessoa.

Mas não podemos ficar paralisados. Então, vem o próximo passo:

 

Conduzir

O 3º passo é conduzir a pessoa até um profissional de saúde mental, ou seja, não ficar paralisado. Para quem se encontra fragilizado e sem esperança, a iniciativa de buscar ajuda geralmente não se dá espontaneamente.

Não adianta dar 3 tapinhas nas costas e falar “Me promete que você vai se cuidar”. Uma pessoa deprimida não consegue nem tomar banho, imagina pegar o telefone, marcar consulta, ir até lá, ficar esperando, depois ir até a farmácia, comprar o remédio, tomar o remédio...

Então, se uma pessoa está deprimida, precisamos dar ajuda prática e não ajuda moral. Precisamos ajudar a pessoa a obter tratamento!

 

Então, ROC: Repare no risco, ouça com atenção e sem julgar e conduza até um profissional de saúde mental!

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