Prevenção do uso de substâncias durante a gestação - Palestra da Dra. Renata Azevedo

O consumo de drogas no Brasil é um verdadeiro problema de saúde pública. Quando usado de forma problemática, pode provocar ou aumentar crises familiares e violência.

O uso ou a dependência de substâncias psicoativas por gestantes é bastante preocupante, uma vez que a gestação é um período de transformações significativas no corpo da mulher e no seu estado psicoemocional.

Além dos problemas que provoca à gestante usuária, o bebê também sofre prejuízos, uma vez que a maioria das substâncias psicoativas ultrapassam a barreira placentária e chegam à corrente sanguínea do feto.

Por isso é tão importante prevenir o uso de substâncias durante a gestação e, para falar sobre isso, o 7º Congresso Internacional Freemind 2022 convidou a Dra. Renata Azevedo, que é Psiquiatra, vice-presidente da ABEAD - Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas, professora associada em dedicação exclusiva e atual chefe do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

A palestra pode ser vista na íntegra no YouTube do Freemind em português e em inglês é possível fazer o download de sua apresentação no site do Freemind, na aba Congresso 2022.

E ela começa nos lembrando que, historicamente, o uso de drogas sempre foi um fenômeno masculino, muito maior entre homens do que entre mulheres.

Este fato norteou as pesquisas em problemas relacionados ao uso de drogas, as propostas de prevenção, as linhas de cuidado, a formação dos profissionais e a disponibilidade do tratamento.

No entanto, este padrão tem se modificado rapidamente, principalmente na última década. E podemos ver isso claramente quando são comparados os dados obtidos no LENAD I e LENAD II – Levantamentos Nacionais sobre os padrões de consumo de álcool e drogas, realizados pela UNIAD/INPAD/UNIFESP nos anos de 2006 e 2012, respectivamente.

A redução do tabagismo vem diminuindo ao longo dos anos, mas em taxas muito inferiores para as mulheres quando comparadas às taxas de redução nos homens.

O beber em binge, que é o beber se intoxicando, por outro lado vem aumentando tanto em homens quanto em mulheres, mas nelas em maior proporção. Outro dado preocupante é que, em 2006, apenas 1% das meninas até 11 anos já tinham iniciado o consumo de bebidas alcoólicas e essa porcentagem aumentou para 4% em 2012, enquanto as taxas entre os meninos permaneceram a mesma – 5%.

Isto se repetiu na faixa etária de 15 a 17 anos: os homens mantiveram a taxa de 41% e as mulheres migaram de 28 para 32%.

Na pesquisa PeNSE – Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, de 2019, feita especificamente em ambiente escolar, pode-se ver que na comparação entre o uso de experimentação de bebidas alcoólicas é maior em meninas do que em meninos, enquanto que a taxa de uso de cigarro e substâncias ilícitas é idêntica entre eles.

Esta pesquisa mostra também dados importantes quando se fala sobre a abordagem do uso de substâncias em mulheres, na gestação ou fora dela, que é a interrelação entre uso de substâncias e questões emocionais: 27% das adolescentes mulheres entre 13 e 17 anos relatam saúde mental negativa em comparação com 8% dos meninos que se autoavaliam da mesma forma.

O LENAD também apontou taxas expressivas de depressão em mulheres que fazem uso de substâncias. Ou seja, não é possível falar de abordagem entre as mulheres sem levar em conta os aspectos que são particulares ao sofrimento físico.

No ocidente, a taxa de prevalência de gravidez não planejada está entre 30 e 50% e o uso de substâncias está relacionado a isso, o que torna a situação muito sofrida.

Outro fator a se considerar é que as mulheres que usam substâncias tendem a usar menos os serviços de saúde reprodutiva por medo do estigma, por dificuldades em discutir sua história sexual e por medo de perder seus filhos caso relatem o uso de substâncias. Tudo isso faz com que elas tenham menor adesão às intervenções durante a gestação.

Quando os serviços de saúde estão preparados, são empáticos e qualificados, há modificações nas práticas e as mulheres fazem escolhas que favorecem o planejamento familiar.

Outro aspecto importante quando se pensa no período gestacional, é levar em conta que, para a maioria das mulheres, a gestação e a chegada do bebê é um momento de alegria, de esperança no futuro e de renovação, o que faz a gestação ser considerada como um motivador para a adoção de hábitos saudáveis, entre eles a cessação do uso de substâncias.

Isso, porém, não é garantia de proteção da mulher em relação a problemas de saúde mental. Estudos apontam que uma em cada 3 mulheres apresentam algum tipo de transtorno mental durante a gestação. O que mais se fala são dos quadros de depressão puerperal, mas estima-se que 40% das ditas depressões puerperais são, na realidade, depressões gestacionais que não foram detectadas durante o pré-natal.

Devido a se ter muita subnotificação do uso de substâncias durante a gestação, estudos sobre as consequências clínicas desse uso ficam prejudicados e é difícil atribuir a consequência de um abortamento, por exemplo, ao uso de uma ou outra droga (já que muitas vezes existe o policonsumo) ou ao fato de que a gestante não se alimentou bem durante a gestação ou não fez um pré-natal adequado.

Isso faz com que os obstetras frequentemente tenham dificuldade de falar dos danos reais que o uso de substâncias pode trazer e, com isso, a intervenção acaba ficando prejudicada.

Apesar disso tudo, já há muita informação disponível que precisa ser passada para as gestantes de forma adequada para que elas consigam avaliar, no seu processo de decisão, o risco do uso de substâncias durante sua vida e, sobretudo durante a gestação.

Podemos citar algumas consequências já conhecidas e irrefutáveis do uso de algumas substâncias:

TABACO

  • Maior chance de aborto espontâneo
  • Chance aumentada de baixo crescimento intrauterino, o que leva a um aumento de tempo de UTI
  • Partos prematuros, com posterior aumento de chance de morte súbita do bebê
  • Bebês com baixo peso
  • Alterações hematológicas
  • Quadros cognitivos e alterações psicomotoras, como por exemplo, aumento da chance de TDAH na infância

ÁLCOOL

  • Alterações em relação ao crescimento intrauterino
  • Más formações diversas, sendo a mais conhecida a SAF – Síndrome Alcoólica Fetal, principal causa evitável de deficiência intelectual

COCAÍNA

A cocaína traz uma dificuldade a mais: isolar o que é consequência apenas do seu uso, uma vez que raramente uma gestante ou usuária de cocaína não é usuária também de outras substâncias.

  • Maior chance de aborto
  • Uma série de más formações fetais e consequências nos recém-nascidos, principalmente quadros de hiperatividade depois na infância e na adolescência.

MACONHA

Aumentou muito o número de pesquisas em relação ao impacto da maconha na gestação e com isso é possível afirmar com toda a certeza que a maconha não deve ser usada durante a gestação e nem durante a amamentação. Também se sabe que ela não é uma boa forma de lidar com náuseas.

A maconha também é conhecida há bastante tempo como uma agravadora de um bom desfecho neonatal devido a uma série de fatores: comorbidades psiquiátricas (principalmente transtornos de humor), a má evolução de gestações anteriores, abortos de repetição, gravidez não desejada, violência doméstica, não ter suporte social e antecedentes de violência sexual, entre outros.

 

No ambulatório de saúde mental do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher – CAISM, da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, coordenado pela Dra. Renata Azevedo, tem sido feito um estudo de seguimento de gestantes que encontrou uma taxa de transtorno mental muito expressiva: 41% de taxa de ansiedade, 31% de taxa de depressão e 9,5% de comportamento suicida durante a gestação. E quando se leva em conta o uso de substâncias, foi encontrado que quase 10% são tabagistas, a taxa de uso de maconha é superior à taxa do uso de álcool, que é de 5%.

Foi feito então um trabalho de intervenção com as gestantes uso de substâncias e foi possível observar que muitas gestantes pararam espontaneamente o uso, o que é um dado sempre muito animador.

É preciso trabalhar com as gestantes uma intervenção motivacional, fornecendo informações de uma forma empática e sem julgamentos, avaliando as barreiras que elas têm e facilitando o acesso ao cuidado formal, sempre instilando a esperança de que ela é capaz de fazer esta mudança.

É necessário quebrar o estigma em relação ao uso de substâncias em mulheres e, principalmente, entre gestantes, porque isso faz com que elas não busquem os serviços de saúde. Se elas não procuram os serviços, a oferta dos mesmos é diminuída e isso vira um círculo vicioso.

 

Então, os pontos-chave para finalizar:

- As estratégias de promoção à saúde, principalmente a saúde reprodutiva, são fundamentais e as estratégias de prevenção dirigidas a mulheres, específicas.

 - Concentrar a abordagem no binômio mãe-bebê e não apenas na saúde do bebê, que é o que costuma ser feito; então focar nas necessidades da mãe para aumentar a motivação para abstinência, obviamente também cuidando do bebê, mas falando dela.

- Avaliar a rede de apoio, com ênfase principalmente no parceiro, no uso de substâncias intrafamiliar e em possíveis situações de violência

- Identificar e tratar as comorbidades, principalmente depressão e

- Estabelecer metas a curto prazo e readequar rapidamente às necessidades da paciente.

 

E, sobretudo, lembrar que a saúde mental materna é um dos elementos cruciais para o desenvolvimento saudável na vida de todos nós.

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Brasil