ÁLCOOL E RELAÇÕES DE GÊNERO: MOTIVAÇÕES E VULNERABILIDADES NA PERCEPÇÃO DE ADOLESCENTES

Elaine Lucas Dos Santos: Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (Nepsis), Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Emérita Sátiro Opaleye: Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (Nepsis), Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Ana Regina Noto: Núcleo de Pesquisa em Saúde e Uso de Substâncias (Nepsis), Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

ABSTRACT. This article explores the perception of adolescents in a state of social vulnerability in the city of São Paulo, focusing on the perspective of gender relations on the motivations to drink and the risks associated with the use, as well as those inherent to the contexts of alcohol consumption. This is a qualitative study using the technique of focus groups with 153 young people from Youth Centers and Public Schools in the city of São Paulo, aged 14 to 17 years old allocated in 32 groups separated by gender. The reports were recorded, transcribed and subjected to content analysis. The participants of this research referred to perceive Pancadões as the main context of alcohol use by young people from the periphery and the motivations for drinking were attributed to personal factors (search for fun, relief from displeasure) and sociocultural, in which alcohol is a means for personal appreciation ('show off') and facilitator of the peer relationship ('to hook up'). Among the associated risks, stand out sexual abuse and frequent exposure of girls on the internet and social problems such as lack of inspection, police violence and the presence of trafficking. The results show perceptions about the interrelation between alcohol, gender and violence in Pancadões, suggesting the need for preventive and harm reduction actions in line with the demands of this socio-cultural context.

Introdução
Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas da United Nations Office on Drugs and Crime [UNODC], o álcool é a substância de abuso mais usada por jovens em todo o mundo (UNODC, 2012). No Brasil, um levantamento realizado nas 27 capitais identificou que 59,3% dos estudantes de escolas públicas relataram ter feito uso de álcool na vida (Carlini, Noto, & Sanchez, 2010).
O uso de álcool na adolescência é comumente motivado por curiosidade, intenção de pertencimento a um determinado grupo, pressão social, entre outros fatores socioculturais. O consumo abusivo de álcool por adolescentes está relacionado a inúmeras consequências negativas, tanto na esfera individual quanto coletiva (Brown, 2013). A ingestão de altas doses de bebidas alcoólicas pode prejudicar o rendimento escolar, as relações interpessoais, favorecer comportamentos sexuais de risco, envolvimento em brigas e aumentar as chances de o sujeito ferir a si e/ou aos outros (Swahn, Simon, Hammig, & Guerrero, 2004). Em relação ao comportamento sexual de risco, o consumo de álcool está relacionado ao aumento de relações sexuais sem uso de preservativo e consequentemente, a predisposição à gravidez precoce e o risco de doenças sexualmente transmissíveis (DST) e a cometer ou ser vítima em casos de violência sexual (Brown, 2013).
De acordo com a teoria do desenvolvimento ecológico, desenvolvida por Urie Bronfenbrenner (1996), o comportamento adolescente é resultante das características individuais e da maneira como ele se relaciona com diferentes contextos, como família, escola, cultura e legislação. Assim, podem haver vários fatores de risco ao desenvolvimento presentes nos contextos ecológicos capazes de aumentar a probabilidade de problemas físicos, psicológicos, comportamentais e/ou sociais (Diniz & Koller, 2010). Dentro dessa visão, o consumo problemático de álcool é interpretado em lógica circular, como resultante da interação de fatores biopsicossociais, assim como fator adicional de vulnerabilidade.
Motivações e expectativas sobre o beber podem ter relação com o início e a manutenção do consumo de bebida, principalmente com relação ao gênero. Algumas crenças e valores culturais favorecem determinados comportamentos entre os sexos (Fachini & Furtado, 2012). Por exemplo, a inter-relação entre uso de álcool e a afirmação da masculinidade para o sexo masculino e, abusos sexuais ou de julgamento moral, sofridos no caso de embriaguez entre o sexo feminino (Freitas, Ribeiro, & Saldanha, 2012).
De acordo com o Atlas socioassistencial da cidade de São Paulo (2015), a vulnerabilidade é definida como “[...] conjunto de fatores como características do território, ciclo etário, dificuldades enfrentadas pelas famílias e falta de acesso a políticas públicas”. Tal condição é mais frequente em regiões periféricas do município, onde há predomínio de escolas públicas. No entanto, faltam estudos que avaliem a percepção dos adolescentes sobre como ele se relaciona com o meio e de como esta relação pode influenciar seus comportamentos com relação ao uso de álcool.
Este estudo teve como objetivo explorar a percepção de adolescentes em estado de vulnerabilidade social da cidade de São Paulo, com enfoque na perspectiva das relações de gênero sobre as motivações para beber e os riscos associados ao uso, assim como aqueles inerentes aos contextos de consumo de álcool. Espera-se com isso subsidiar ações preventivas e de redução de danos nos contextos de consumo de álcool apresentados pelos adolescentes.

Método

Desenho do estudo Trata-se de uma pesquisa com abordagem qualitativa de caráter descritivo e exploratório que buscou investigar as crenças e valores dos adolescentes sobre o consumo de álcool em contextos da periferia de São Paulo. Foi escolhida a técnica de grupos focais (GF) por favorecer a interação entre os participantes e possibilitar o estudo de perspectivas de grupos sociais e, considerando que o uso de álcool para essa subpopulação acontece principalmente no coletivo, optamos por abordar o tema com os adolescentes junto aos seus pares. Ademais, o uso de GF é amplamente utilizado e indicado no desenvolvimento e aperfeiçoamento de intervenções na área de educação e assistência à saúde (Patton, 2002). 

A coleta de dados foi realizada por uma equipe de oito pesquisadoras da área da saúde, (doutorado completo [n=4], doutorado incompleto [n=1], mestrado incompleto [n=1], graduação completa [n=1] graduação incompleta [n=1]) com experiência prévia em estudos qualitativos. O roteiro foi desenvolvido em conjunto pela equipe de pesquisadores e foi composto por perguntas semiestruturadas que exploraram a percepção e a crença dos adolescentes sobre o uso de álcool, incluindo contextos, padrões de consumo e riscos associados. Todos os pesquisadores foram a campo familiarizados com o roteiro e após a coleta de dados foram realizados encontros periódicos para discussão dos conteúdos emergentes e possíveis alinhamentos quanto à condução das perguntas.

Caracterização dos participantes
Participaram do estudo 153 jovens de Centros da Juventude e Escolas Públicas da cidade de São Paulo, com idade entre 14 e 17 anos, sendo 78 do gênero feminino e 75 do masculino. Foram convidados a participar adolescentes da faixa etária em questão que estavam cursando ensino público. Os GF foram compostos por no máximo oito participantes, separados por gênero. Com o objetivo de caracterizar a amostra em relação ao consumo de álcool foi aplicado antes do início do GF o AUDIT C (Alcohol Use Disorders Identification) que consiste em um questionário de autopreenchimento sobre o padrão de consumo de álcool individual (Saunders, Aasland, Babor, De la Fuente, & Grant, 1993).


Seleção dos participantes
Esta pesquisa foi possibilitada pela parceria das pesquisadoras com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social (SMADS), responsável por gerenciar Centros da Juventude (CJ), instituições municipais que atendem alunos de escola pública em estado de vulnerabilidade em período de contra turno escolar; e pela parceria com uma Diretoria de Ensino da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, responsável por supervisionar uma rede de 49 escolas. A rede de contatos com as instituições citadas favoreceu a seleção e a condução da pesquisa em dois settings diferentes, CJ e escolas de regiões consideradas mais vulneráveis, segundo o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social – IPVS 2010 (Fundação SEADE, 2010). Foram obedecidos cuidados para evitar a dupla participação de um mesmo adolescente vindo dos dois settings investigados. Aos CJ, o convite para participar da pesquisa foi feito por intermédio da SMADS. Todos os 79 CJ existentes na cidade de São Paulo receberam convite por email. Apenas 19 responderam positivamente, como o contato com tais instituições foi realizado via SMADS, não tivemos a oportunidade de perguntar o motivo da não participação dos CJ que não aceitaram participar. Cada uma destas instituições escolheu e enviou um representante de cada gênero para compor os GF. No caso das escolas, o convite foi feito diretamente aos gestores durante um evento sobre promoção de saúde em ambientes educacionais, realizado pela diretoria de ensino. O convite foi aberto a todas as 49 escolas presentes no evento, sendo que 14 aceitaram participar da pesquisa, mas somente oito atenderam ao critério de vulnerabilidade para tornar os dados comparáveis aos dos CJ. Foi realizada uma visita às instituições para apresentação do projeto e na ocasião foi realizado convite aberto em sala de aula aos alunos. Para a coleta de dados, os GF foram organizados por gênero, sendo, portanto, realizados dois grupos em cada escola.

Condução dos grupos focais
Foram conduzidos 32 GF, sendo que 16 foram conduzidos em CJ (49 adolescentes) e 16 em escolas públicas (103 adolescentes). Os grupos foram organizados por gênero e conduzidos por duas pesquisadoras, sendo uma responsável pela coordenação do grupo e a outra pela observação e registros. Os grupos tiveram duração média de 01 hora, com áudios gravados e transcritos integral e literalmente. Os jovens recrutados em CJ foram reunidos em um espaço cedido pela SMADS. Os grupos foram formados aleatoriamente, separados por gênero, sendo que por conter adolescentes de instituições distintas, os jovens não se conheciam, assim como não haviam tido contato prévio com as pesquisadoras. No caso dos adolescentes recrutados nas escolas, os GF foram conduzidos dentro do ambiente escolar e os grupos foram formados por adolescentes da mesma classe.

Aspectos éticos
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (parecer nº 674630). Cada participante foi informado sobre os objetivos e métodos do estudo, com garantia de anonimato e confiabilidade. Todos foram instruídos a não fornecerem informações que pudessem identificá-los ou à instituição ao qual eram vinculados. Foi ressaltada a liberdade em não responder a qualquer uma das perguntas ou de desistência em qualquer fase da pesquisa. A participação aconteceu mediante a entrega dos Termos de Assentimento e dos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), devidamente assinados pelos adolescentes e seus respectivos responsáveis. No caso da TCLE para o maior responsável, o adolescente recebeu com antecedência para que levasse para casa e pedisse que fosse assinado. Só participaram da pesquisa aqueles que no dia da condução do grupo estavam com os termos em mãos.

Análise dos dados
Os dados dos GF foram submetidos à análise de conteúdo, a partir da qual foi feita leitura flutuante das transcrições de todos os grupos focais para consequente escolha das categorias de análise com auxílio do programa NVivo 10. Três pesquisadoras da equipe participaram da análise dos dados por meio de discussões periódicas dos dados levantados. A partir da leitura flutuante e da discussão dos conteúdos emergentes, as categorias de análise e saturação teórica foram definidas com base na triangulação realizada por pares, a fim de aumentar a confiabilidade da análise dos dados.
Para cada GF foi criado um código alfanumérico de quatro caracteres, no qual os dois primeiros identificam a instituição (EP - Escola Pública ou CJ - Centro da Juventude), o terceiro o gênero (F - Feminino ou M - Masculino) e o quarto identifica qual o GF. Ex: O primeiro GF de meninos da escola foi codificado como EPM1.
Para a descrição dos dados deste trabalho, foi utilizada uma diretriz específica para pesquisas qualitativas: o COREQ (Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research) (Tong, Sainsbury, & Craig, 2007).
Resultados
Caracterização do consumo de álcool pelos participantes

A maioria dos participantes do estudo já havia feito uso de álcool na vida, 61% dos meninos e 58% das meninas e os Pancadões foram mencionados em todos os grupos focais como o principal contexto de consumo de álcool pelos adolescentes participantes da pesquisa. Pancadões são eventos realizados em locais abertos, comumente ruas da periferia paulistana, onde prevalece o público jovem. O nome faz referência à batida do funk e dos sons automotivos, comuns nesses ambientes.

Definição das categorias de análise
Em relação aos conteúdos que emergiram nos GF referentes aos objetivos deste estudo, foi possível identificar categorias de análise (Figura 1) que atingiram a saturação nos dois settings estudados. As categorias relacionadas ao consumo de álcool em Pancadões se apresentaram centradas em três eixos principais de percepções: 1) motivações para beber; 2) riscos relacionados ao consumo; 3) vulnerabilidades ambientais e um eixo que foi analisado transversalmente na fala dos adolescentes; 4) questões de gênero.

Pancadões: principal contexto de uso de álcool na periferia de São Paulo
Os adolescentes referiram o uso de álcool como um comportamento favorecido pela busca de diversão e convívio em grupos. O principal contexto de uso, descrito em todos os GF, foram as festas na rua, também denominadas como 'Pancadões, Fluxos ou Funk', em referência ao estilo musical predominante nestes ambientes e comumente por meio de som automotivo.
O Funk é na rua, para um carro com sonzão bem alto, vai juntando gente... fecha a rua e o funk come solto, não tem hora, não tem dia, mas fim de semana é sagrado, tem vezes que juntam até 5 mil pessoas (CJM2).
Embora nem todos os participantes tivessem histórico de experiências diretas em Pancadões, foi possível evidenciar percepções, crenças e valores sobre os padrões de consumo de álcool e outras vulnerabilidades relacionadas a tal contexto. Foram descritos diferentes padrões de consumo de álcool, variando desde a abstinência à embriaguez associada a riscos. Em todos GF, os adolescentes afirmaram acreditar que é possível se divertir sem beber, inclusive relataram a existência de abstêmios em Pancadões. Entre os consumidores, foi possível distinguir nos relatos que os jovens percebem dois padrões distintos: 1 - 'Jovens que bebem, mas bebem pouco' e; 2 - 'Jovens que se embriagam'. O conceito de muito e pouco é relativo e muito particular, e quando questionados o que seria muito ou pouco na percepção deles, eles relacionavam com ausência ou excessos de comportamentos comuns quando há uso de álcool. Como, por exemplo, vomitar, falar alto, dançar e 'fazer besteira'. Embora tenha sido frequente uma percepção inicial de que todos os frequentadores dos Pancadões bebiam muito, conforme os participantes iam descrevendo o contexto, mudavam o discurso, afirmando perceber que, na verdade, a maioria 'bebe pouco'.
Entre os adolescentes referidos com consumo menor, foram observadas diferenças de acordo com o gênero. Sobre as meninas, nos GF de ambos os gêneros, emergiram depoimentos de que algumas 'fingem' estar mais bêbadas do que realmente estão. Também foi evidenciado o papel de cuidadora que algumas, que bebem menos, assumem diante da situação de uma amiga embriagada. Inclusive, esta foi a única estratégia de cuidado ou de redução de riscos descrita pelos participantes. Tais ações foram descritas apenas para o sexo feminino.
[...] aquela amiga que bebe pouco e cuida, leva para casa, segura o cabelo para vomitar, não deixa os caras se aproveitarem (EPF8).
Entre os meninos, no entanto, foi relatado ser comum não beberem muito, mas estimular a embriaguez feminina por meio da oferta de bebida alcoólica, com a finalidade de favorecer a aproximação, referida como 'ficar ou pegar' visando troca de beijo, abraço ou, em alguns casos, ter relação sexual.
Os moleques não chapam. Mas [eles] viram tequila, vodca nas minas, aí elas vão bebendo, vão ficando ‘facinho’ (CJM7).
Somado aos relatos do consumo que leva à embriaguez dos adolescentes, estão descritas as situações de maior vulnerabilidade. Neste grupo, foram comuns os discursos envolvendo situações de sexo não planejado e sem uso de preservativo, exposição em redes sociais, assédio sexual, muitas vezes envolvendo abuso coletivo, brigas, roubos e perdas de objetos.

Têm umas meninas que bebem muito, os caras já aproveitam e acabam levando elas para cama (EPF3).
Vários casos em que a pessoa que bebe muito e tiram a roupa, deixam ela nua. E várias pessoas filmam, tiram foto e postam no Face: ‘fulano de tal, pelado na festa’. Aí começa a rolar aquela fofoca (CJM1).
Crenças sobre as motivações para beber e influências do gênero
Quando questionados sobre a motivação para beber, foram referidas percepções de razões intrínsecas (relacionadas a fatores individuais) e extrínsecas (fatores socioculturais). Entre as motivações intrínsecas, foi referida a curiosidade e busca de diversão, alicerçadas na crença de que 'beber é divertido'. Assim como também foi referida a motivação para alívio de desprazer e fuga dos problemas particulares que, segundo eles, o álcool ajudaria a esquecê-los, ao menos por um tempo. O álcool também foi referido como desinibidor, ao favorecer relações interpessoais, principalmente em relação ao sexo oposto, como forma de 'perder a vergonha'. Tais motivações intrínsecas podem ser observadas nos depoimentos a seguir:
Têm alguns que bebem só ‘pra num’ ficar no estado natural, porque não tem graça. Para não ficar envergonhada, eu bebo (CJF3).
Têm alguns que bebem porque ‘tá’ com problema em casa e pensa ‘ah, se eu for sair eu vou beber bastante pra amenizar, pra ficar tranquilo (CJM8).
Porque eles perdem a vergonha, tem pessoa que tem vergonha, e não tem coragem de chegar numa menina. Bebe e fica desinibido (CJM4).
Entre as motivações extrínsecas, foram relacionados vários elementos ligados à cultura e ao gênero. O álcool foi referido como uma forma de autoafirmação da masculinidade. De acordo com os participantes, existe uma pressão social para que os meninos provem sua masculinidade ou como rito de passagem da adolescência por meio do uso de bebidas.
O cara tem que beber para mostrar que é macho, que já aguenta ... (EPM8).
Para as meninas, o álcool foi referido como uma forma de se destacar no grupo ('chamando a atenção para si'). Elas afirmaram que algumas vezes elas fingiam consumir álcool porque assim poderiam alegar que o fato de estarem embriagadas as eximia da responsabilidade e culpa por seus atos. Este comportamento entre as meninas foi relatado nos GF de ambos os gêneros:
As meninas querem ser populares, então bebem para se aparecer ou nem bebem, mas fingem só para chamar a atenção (CJM3).
Se está bêbada ela tem mais desculpa para fazer o que quiser. Então ela finge que bebe para poder dar para o cara e no outro dia falar que estava bêbada (EPF4).
Os jovens, principalmente os meninos, relataram um comportamento bem característico destes contextos, a 'ostentação'. De acordo com eles, a motivação para a escolha de determinadas bebidas teria relação com as marcas 'da moda' ou que seriam evidenciadas nas músicas. Segundo crenças dos participantes dos GF, os jovens seriam avaliados pelos seus pares, de acordo com a bebida, roupas e celulares que usavam.

Precisa fazer o consumo da bebida da moda, tipo ostentação vai, Red Label (marca de whisky) quanto mais caro, mais o povo vai querer gostar de você, mais vai querer estar com você, entendeu? (CJM3).
O gênero dos adolescentes também pareceu influenciar suas escolhas com relação ao tipo de bebida. A preferência pelos destilados, por parte das meninas, foi atribuída ao gosto 'desagradável' da cerveja, enquanto que os meninos ressaltaram o custo-benefício e a depreciação de certos tipos de bebidas.
Whisky com refrigerante ou energético para ficar bem docinho (CJF2).
Os jovens de hoje nem tomam cerveja, é mais whisky, energético, vodca. Se você beber a Pinga, às vezes você é zoado porque é coisa de velho. Precisa fazer o consumo da bebida da moda (CJM8).
Sai muito caro beber cerveja porque você tem que comprar muitas (EPM7).
Expressão da sexualidade associada à embriaguez
Em todos os GF foi referida a percepção de que as consequências da embriaguez associada à expressão da sexualidade são piores para o gênero feminino. Foi referido o julgamento moral e a exposição em mídias, predominantemente voltado para as meninas.
A fofoca na escola é mais com as mulheres, homem não. Geralmente o cara grava uma transa e põe no WhatsApp e gera boato. Tipo, para as meninas: vagabunda, vadia, várias coisas, mas não para nós homens (CJM1).
Ambos os grupos trouxeram um discurso de culpabilização das vítimas, apresentando uma crença de que a condição de embriaguez autoriza que uma menina seja abusada. Por outro lado, o álcool (estado de embriaguez) também foi visto como 'desculpa' para justificar comportamentos desejados pelas meninas, mas que são socialmente reprovados quando estão sóbrias.
A menina vai quase pelada, fica dançando e aceitando bebida de qualquer menino, eles arrancam a roupa dela mesmo. Ficou bêbada porque quis, esfregou a bunda porque quis. Eles aproveitam (EPF8).
Embora tenham sido relatados muitos casos de abuso sexual, houve poucos depoimentos que demonstraram percepção de riscos relacionados à prática sexual sem preservativo, como gravidez e contágio de DST.

Percepções sobre outras vulnerabilidades contextuais em Pancadões
Os jovens relataram que a falta de recursos financeiros para financiar o consumo favorece a oferta de bebida adulterada, percebida como sendo comum nestes ambientes, pela falta de fiscalização e controle de vendas. A 'ostentação' também foi referida como motivador deste e de outros comportamentos de risco, como roubos ou envolvimento com o tráfico, como meios de conseguir sustento para seus gastos.
É muito fácil comprar bebida, ninguém pede RG e no Pancadão têm aqueles vendedores vendendo Red (marca de whisky), você paga 35 reais a dose, mas aquilo lá não é whisky e não importa porque o que vale é estar com o copo na mão (CJM2).

Você precisa ostentar, então você tem que estar com um celular legal, uma roupa bacana e não é todo mundo que pode pagar, então faz o quê? Rouba, rouba ou entra para o tráfico (CJF4).
Além do álcool, os participantes relataram o consumo de outras substâncias. Foi referido uso de maconha, cocaína, crack, narguilé e principalmente, o uso de solventes, referido por eles como 'lança'. O uso de lança foi citado na maioria dos grupos, inclusive relacionado à causa de morte de jovens nos Pancadões.
Maconha, pó bastante eles usam. Mais pó, que eles ficam bem em alerta, algumas pessoas misturam (EPF7).
[...] coloca balinha junto com o lança, fica gostoso. Antes você nem ouvia falar, agora lança é a onda (CJF2).
No mês passado morreu um menino lá da ONG, foi lança que era na verdade respingo de solda (CJM3).
São percebidos também riscos estruturais comuns a todos os frequentadores dos Pancadões. Foi referida violência por parte de traficantes que, segundo os depoimentos, sinalizam o início destas festas atirando para o alto. Da mesma forma, foi citada a violência de policiais que, segundo os participantes, costumam 'invadir' o evento para 'evacuar' as ruas. Há casos em que os jovens descreveram situações de desordem que acabam colocando-os em riscos físicos.
É assim, têm vezes que tem traficante armado. Nem precisa porque todo mundo sabe quem são, mas eles gostam de mostrar [...] algumas vezes eles começam a atirar para cima para avisar a galera que vai começar o Funk (CJF2).
A polícia já entra xingando, atirando bala de borracha e bomba, não tem essa de perguntar antes (CJM8).
Todo mundo sai correndo, vai corre, corre, corre. Um vai para o lado do outro. Um atropela o outro. As motos ficam tudo lá caídas, o que é roubado fica lá parado no meio, os meninos perdem o celular perdem tudo lá no meio correndo, celular, relógio tudo (EPM7).

Discussão
Os depoimentos dos adolescentes, neste estudo, sugerem um processo de naturalização do consumo de álcool em Pancadões. Embora alguns afirmem não beber nesses eventos, foram referidos importantes fatores de valorização do consumo associado a riscos. As motivações para beber puderam ser divididas em intrínsecas, como busca de prazer e diversão ou alívio de desprazer e fuga; e extrínsecas, como pressão social, ostentação e cultura de consumo. Dentre os que bebem, houve muitos relatos evidenciando diferentes padrões de uso e vários riscos associados. Com destaque para os comportamentos sexuais, principalmente os que envolvem os abusos sofridos pelas meninas e as frequentes exposições na internet. Apesar disso, foram raros os depoimentos que demonstraram percepção de riscos relacionados à gravidez e DST. Somado a todo o contexto descrito, foram referidas características sociais, como a falta de fiscalização, a violência policial e a presença de tráfico que aumentam a vulnerabilidade nesses ambientes e a influência da cultura que segundo os jovens, pode modular comportamentos.
Frente a tais achados, este estudo evidencia a importância em ampliar a discussão sobre o uso de álcool e o comportamento do jovem para além da proibição dos Pancadões ou do consumo de bebida. Outro ponto forte é que a investigação foi feita a partir da perspectiva do adolescente que está inserido no contexto descrito. Em contrapartida, houve algumas limitações, como a percepção exclusiva de jovens paulistanos, o que impossibilita que os dados sejam transpostos para outros cenários e a falta de representatividade de participantes que fogem dos modelos heteronormativos. Houve limitações metodológicas por não envolver visitas de campo para averiguar os dados e, visto que a técnica de GF acessa a construção coletiva, não foi possível investigar a percepção particular e mais profunda dos participantes. Por fim, a divisão dos GF por gênero proporcionou ganhos por deixar os participantes mais à vontade para falar sobre temas delicados para a faixa etária, como assuntos ligados à sexualidade, mas perdeu possíveis contrapontos dos discursos que poderiam ter resultado da união entre meninos e meninas, sobre o porquê de as consequências morais serem percebidas como mais impactantes para as meninas, por exemplo.
A discussão dos resultados apresentados foi proposta com base na estrutura da perspectiva do desenvolvimento bioecológico (Bronfenbrenner, 1996). Foram consideradas as características particulares dos adolescentes sobre as motivações pessoais para beber, os contextos de uso, as relações com os pares e as influências sociais e culturais que podem atuar como moduladores do consumo de álcool e de comportamentos de risco associados. Os adolescentes relataram que é comum o uso de álcool em encontros coletivos com seus pares, o que corrobora com estudos que apontam o álcool como facilitador da socialização (Ambiel, Reis, Cesco, & Oliveira, 2015). A particularidade dos nossos dados, no entanto, foram os Pancadões, principais contextos de uso citados pelos jovens em estado de vulnerabilidade, o que não aconteceu em estudos com a mesma faixa etária de alunos de escolas privadas de São Paulo (Gonçalves, Opaleye, & Amato, 2014). Comumente, os jovens se reúnem na rua para dançar e frequentemente estas festas são associadas a vários comportamentos de risco em decorrência do consumo de álcool e outras drogas, bem como a dificuldade de fiscalização (Pereira, 2014).
Observamos nas razões para beber, apontadas pelos jovens, que eles sempre buscam na bebida um meio para atingir outro propósito. Assim, ao álcool vão sendo atribuídas as mais variadas funções. A partir dos relatos dos adolescentes, foi possível estabelecer relações de motivações tanto intrínsecas quanto extrínsecas para se fazer uso de álcool, Na adolescência o sistema nervoso passa por modificações inerentes ao desenvolvimento humano que aumentam a vulnerabilidade dos jovens a comportamentos de risco e buscas por novas experiências que incluem o uso de substâncias (Chambers, Taylor & Potenza, 2003), ou seja, a curiosidade e a tentativa de experimentar sensações novas por meio do uso de álcool, por exemplo. Quando isso ocorre, vulnerabilidades comuns da adolescência como dúvidas e inseguranças, podem ser potencializadas quando adicionados os efeitos do álcool (Chambers et al., 2003).
Motivações ligadas à autoafirmação enquanto 'macho' para os meninos ancoradas no uso de álcool estão mais relacionadas a uma construção social, do que a uma característica morfológica ou física do desenvolvimento. Assim, a pressão social e por pares para que os meninos expressem sua masculinidade reforçam tanto o consumo, quanto o aumento aos riscos relacionados ao uso de bebidas (Iwamoto & Smiler, 2013).
Meninas relataram beber e, muitas vezes, se embriagar, como uma forma de expressar sua sexualidade, justificadas pela crença de que 'se está bêbada, pode'. Isso mostra que, enquanto para os homens, é comum e culturalmente apoiado um comportamento sexual ativo e exacerbado, às mulheres é dirigido um discurso cheio de julgamento e preconceito com a forma como expõem seu corpo ou expressam seus desejos sexuais. Podendo estar associado à crença de que 'mulheres bêbadas são mais fáceis' e os referidos casos de estímulo da embriaguez por parte dos meninos, mostram que a liberdade sexual feminina precisa ser melhor discutida e que daquelas que expressam sua sexualidade com maior liberdade, sejam retirados os rótulos que associam comportamento sexual ao caráter.
Associado às motivações para beber, foi evidenciado um padrão de consumo que vai além da condição financeira de muitos jovens. O comportamento relatado como ostentação pelos participantes, traz à tona ideais capitalistas, nos quais, em uma sociedade consumista o sujeito é valorizado e admirado pelo que possui e não pelo que é (Baudrilard, 1995). A necessidade em ostentar também é observada em outros grupos da nossa sociedade, principalmente se consideramos o público jovem, alvo principal de campanhas de marketing para a maioria dos produtos citados pelos participantes. O que é problemático no contexto estudado, foram os adolescentes relatarem recorrer a meios ilícitos para financiar o consumo, ou, no caso das bebidas alcoólicas, se colocarem em riscos adicionais ao ingerirem produtos falsificados.
Embora as motivações pessoais para beber tenham sido apresentadas quase sempre de forma positiva, foram associados vários comportamentos sexuais de risco ao uso de álcool, tais como prática sexual não planejada, sem preservativos e assédio sexual, com o hábito de expor meninas em redes sociais. Estudos mostram que o uso de álcool promove um rebaixamento de crítica, aumentando comportamentos impulsivos (Brown, 2013; Chambers et al., 2003), podendo indicar maior propensão ao sexo não planejado e desprotegido. Apesar de relatarem o não uso de preservativo, houve poucos relatos demonstrando preocupação com uma possível gravidez precoce e indesejada ou a possibilidade em se contrair uma doença. Nos últimos anos houve aumento considerável no número de novos casos de DST e AIDS para esta faixa etária no Brasil, de acordo com o Boletim Epidemiológico HIV e AIDS de 2015 (Boletim epidemiológico..., 2015), o que pode estar relacionado a esta baixa percepção de riscos e ao consequente não uso de proteção.
Várias situações descritas pelos adolescentes podem ser enquadradas como relatos de estupro, inclusive coletivo. Eles, porém, não pareceram perceber a gravidade das situações relatadas, nem mesmo por parte das vítimas, já que as meninas não foram capazes de nomear os abusos como estupro, mas enfatizaram a importância de ter uma amiga sóbria que exerça o papel de cuidadora daquelas que se embriagam e assim, protegê-las de serem abordadas por meninos e se colocarem em maiores riscos (Odgers et al., 2008).
Tanto os atos de abuso sexual quanto a exposição e o compartilhamento de imagens não autorizadas na internet ou via celular podem ser classificados como difamação (imputar fato ofensivo à reputação) ou injúria (ofender a dignidade ou decoro), segundo os artigos 139 e 140 do Código Penal Brasileiro (Lei nº 2.848, 1940). No caso de menores de 18 anos, o artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) qualifica como crime grave a divulgação de imagens de menores em situação de sexo explícito ou pornográfica (Lei nº 8.069, 1990). A prática de compartilhamento de fotos e vídeos com conteúdo sexual via celular ou novas tecnologias, com a denominação de sexting e a frequência que ocorre tem ganhado visibilidade mundial e atenção pela preocupação com as consequências legais e psicológicas de tal exposição para a pessoa no mundo real (Mitchell, Finkelhor, Jones, & Wolak, 2012). Os jovens parecem subestimar ou não perceber os riscos e falta de denúncia faz com que a prática seja mantida, os culpados saiam impunes e a responsabilidade recaia comumente sobre a vítima.

A culpabilização da vítima, não só por meninos, mas muitas vezes endossada na fala feminina, mostra que culturalmente, o estupro é naturalizado e pouco reconhecido. Além disso, apesar de a figura feminina ser explorada sexualmente desde o Brasil Colônia, uma mulher não é bem vista, e inclusive, sofre julgamento moral, caso ela própria expresse sua sexualidade (Souza, Baldwin, & Rosa, 2000), mesmo em ambientes eroticamente estereotipados, como locais de cultura funk.
É sabido que a mídia e as diferentes expressões culturais, embora sejam níveis ecológicos mais distantes do convívio dos adolescentes, quando comparado a família e amigos, por exemplo, apresentam uma relação bidirecional, tanto sendo resultado de conceitos sociais, como podendo modular comportamentos (Silva, Araujo, Santana, & Vasconcelos, 2012), corroborando com a teoria bioecológica (Bronfenbrenner, 1996). Neste estudo, foi referido pelos participantes que o funk estaria influenciando o comportamento de alguns adolescentes, no modo de vestir, agir, mesmo se relacionar.
No Brasil, o funk além de retratar características gerais das comunidades da periferia, se dividiu em dois subgêneros, 'Funk Ostentação' que faz apologia à cultura de consumo, inclusive de bebidas alcoólicas e o 'Funk Proibidão' que faz uso de uma linguagem mais pornográfica, com composições eróticas nas quais se sobressaem a alusão ao machismo e a desvalorização da mulher. É possível que os jovens se identifiquem com músicas que retratem o ambiente onde eles vivem, tal como favela, tráfico e uso de drogas, temas recorrentes em músicas do gênero, e assim, estejam mais vulneráveis às influências de outros temas abordados, como a ostentação e/ou a desvalorização da mulher, por meio de uma perspectiva alusiva ao machismo. Embora estejamos evidenciando este gênero musical, exclusivamente, pelo fato de ser o que toca predominantemente nos Pancadões, ressaltamos que os valores descritos e disseminados por essa vertente musical, também são propagados em outros gêneros e ambientes (Primack, McClure, Li, & Sargent, 2014), inclusive frequentados por pessoas de maior poder aquisitivo.
As tentativas da prefeitura municipal de São Paulo e do Estado de São Paulo de extinguir este fenômeno, por meio de ações policiais ou criação de leis, têm se mostrado ineficazes, tanto que a lei que ficou conhecida pela mídia e pela população como a 'Lei do Pancadão', criada em 2015, ainda não entrou em vigor (Lei nº 16.049, 2015). Pancadões são expressões coletivas dos adolescentes da periferia, muito parecidas com os 'Rolezinhos' (passeios coletivos de dezenas de jovens da periferia em shopping centers ou centros de convivência de zonas de maior poder aquisitivo que ocorreram na cidade de São Paulo entre 2013 e 2014) (Viana, 2014). Assim, é possível que, uma vez impedidos de realizar o Pancadão em um lugar, provavelmente os jovens se reunirão em outro, assim como faziam nos 'Rolezinhos'. Por isso, as discussões sobre regulamentação desse tipo de evento deveriam ir além da sua proibição e considerar o que significa e o que o jovem busca por meio deste fenômeno (Viana, 2014). Compreendendo suas intenções, provavelmente será possível dialogar e promover reflexão sobre os comportamentos de risco adotados pelos adolescentes nestes ambientes, principalmente quando considerarmos que embora eles tenham narrado várias situações de riscos, eles não demonstraram preocupação em adotar estratégias para se proteger. O que deixa uma lacuna para estudos futuros que foquem na redução dos riscos relacionados ao uso da substância, tendo em vista a realidade de consumo dessa população e criem espaços de reflexão para o jovem compreender que a autonomia envolve responsabilidade e cuidado consigo mesmo e com os outros (Moreira, Silveira, & Andreoli, 2006).

Considerações finais
Para que uma intervenção faça sentido é importante que seja considerada a realidade onde o público alvo está inserida e definir objetivos e ações que possam ser desenvolvidas em diferentes níveis. Nossos dados sugerem que os adolescentes da periferia têm motivações semelhantes aos de outros contextos sociais para beber, o contexto de uso descrito por eles é o que aumenta os riscos aos quais eles se expõem ao beber. O desenvolvimento de estratégias que estimulem o senso crítico, o autocuidado, o respeito ao próximo, o fortalecimento de habilidades pessoais para a vida deve ser incentivado. Porém, para que as mudanças sejam realmente efetivas e duradouras, é preciso promover transformações culturais na forma como toda a sociedade lida com questões sobre gênero e consumismo, o que leva tempo e ações em diferentes níveis.
Algumas questões, no entanto, podem ser realizadas de maneira mais prática. O uso de álcool, gênero, violência e sexualidade são temas que aparecem interligados em ambientes de Pancadões, o que torna imprescindível que os mesmos sejam trabalhados em conjunto e de forma clara. Nossos dados sugerem a adoção de estratégias simples de redução de danos (RD), como disponibilizar água e preservativos para os frequentadores poderiam ser adotadas como um ponto de partida nestes contextos.
Há organizações não governamentais que atuam em projetos de RD em festas, mas comumente contam com o apoio dos organizadores. No caso dos Pancadões, a falta de fiscalização e segurança dificultariam o trabalho, sendo necessário que município e Estado fossem parceiros nestas iniciativas. Outra via para lidar com os riscos de maneira mais global, ainda que não percebidos pelos adolescentes, seria a adoção de estratégias pensadas em conjunto com estes, promovendo reflexões e críticas sobre suas atitudes, autorrespeito e respeito ao próximo, bem como, fossem apresentadas informações de qualidade e projetos de vida que ampliassem suas perspectivas de futuro. Com isso, aumentaria a percepção dos jovens sobre seus comportamentos, mantendo sua autonomia na hora de tomar decisões mais conscientes e seguras com relação ao uso de álcool e demais comportamentos interligados em qualquer contexto, além dos Pancadões.

Referências


Ambiel, R. A. M., Reis, A. M., Cesco, S., & Oliveira, J. (2015). Investigação de relações entre crenças e expectativas ao uso do álcool e características de personalidade. Revista Sul Americana de Psicologia, 3(1).
Atlas socioassistencial da cidade de São Paulo. (2015). São Paulo, SP: Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social. Coordenadoria do Observatório de Políticas Sociais.
Baudrillard, J. (1995). A sociedade de consumo. Rio de Janeiro, RJ: Elfos.
Boletim epidemiológico HIV/AIDS de 2015. (2015). Brasília, DF: Ministério da Saúde. Recuperado de: http://www.aids.gov.br/pt-br/taxonomy/term/595
Bronfenbrenner, U. (1996). A ecologia do desenvolvimento humano: Porto Alegre, RS: Artes Médicas.

Brown, M. (2013). Familial, social, and individual factors contributing to risk for adolescent substance use. Journal of Addiction, 1-9.
Carlini, E., Noto, A., & Sanchez, Z. (2010). VI Levantamento Nacional sobre o Consumo de drogas psicotrópicas entre estudantes de ensino fundamental e médio das redes pública e privada de ensino nas 27 capitais brasileiras-2010. São Paulo, SP: CEBRID-Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas.
Chambers, R. A., Taylor, J. R., & Potenza, M. N. (2003). Developmental neurocircuitry of motivation in adolescence: a critical period of addiction vulnerability. American Journal of Psychiatry, 160(6), 1041-1052.
Diniz, E., & Koller, S. H. (2010). O afeto como um processo de desenvolvimento ecológico. Educar em Revista, (36), 65-76.
Fachini, A., & Furtado, E. F. (2012). Diferenças de gênero sobre expectativas do uso de álcool. Revista de Psiquiatria Clínica, 39 (2), 68-73.
Freitas, E. S. da, Ribeiro, K. C. S., & Saldanha, A. A. W. (2012). O uso de álcool por adolescentes: uma comparação por gênero. Psicologia Argumento, 30 (69).
Fundação SEADE. (2010). Índice paulista de vulnerabilidade social - IPVS 2010. São Paulo, SP.
Gonçalves, L. P., Opaleye, E. S., & Amato, T. D. C. (2014). Percepção de riscos e estratégias de redução de danos do uso de álcool por adolescentes: subsídios para intervenções além do "Diga não". Brasília, DF: CIEE/SENAD.
Iwamoto, D. K., & Smiler, A. P. (2013). Alcohol makes you macho and helps you make friends: the role of masculine norms and peer pressure in adolescent boys’ and girls’ alcohol use. Substance Use & Misuse, 48(5), 371-378.
Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. (1940). Código penal brasileiro. Diário Oficial da União.
Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. (1990). Estatuto da criança e do adolescente. Diário Oficial da União.
Lei nº 16.049 de 10 de dezembro 2015. (2015). Dispõe sobre a emissão de ruídos sonoros provenientes de aparelhos de som portáteis ou instalados em veículos automotores estacionados e dá outras providências. São Paulo, SP: Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.
Mitchell, K. J., Finkelhor, D., Jones, L. M., & Wolak, J. (2012). Prevalence and characteristics of youth sexting: A national study. Pediatrics, 129(1), 13-20.
Moreira, F. G., Silveira, D. X. D., & Andreoli, S. B. (2006). Situações relacionadas ao uso indevido de drogas nas escolas públicas da cidade de São Paulo. Revista de Saúde Publica, 40(5), 810-817.
Odgers, C. L., Caspi, A., Nagin, D. S., Piquero, A. R., Slutske, W. S., Milne, B. J., & Moffitt, T. E. (2008). Is it important to prevent early exposure to drugs and alcohol among adolescents? Psychological Science, 19(10), 1037-1044.

Patton, M. Q. (2002). Designing qualitative studies. Qualitative Research and Evaluation Methods, 3, 230-246.
Pereira, A. B. (2014). Funk ostentação em São Paulo: imaginação, consumo e novas tecnologia da informação e da comunicação. Revista Estudos Culturais, 1(1).
Primack, B. A., McClure, A. C., Li, Z., & Sargent, J. D. (2014). Receptivity to and recall of alcohol brand appearances in us popular music and alcohol‐related behaviors. Alcoholism: Clinical and Experimental Research, 38(6), 1737-1744.
Saunders, J. B., Aasland, O. G., Babor, T. F., De la Fuente, J. R., & Grant, M. (1993). Development of the alcohol use disorders identification test (AUDIT): WHO collaborative project on early detection of persons with harmful alcohol consumption‐II. Addiction, 88(6), 791-804.
Silva, S. E. D., Araujo, J. S., Santana, M. E., & Vasconcelos, E. V. (2012). As representações sociais da bebida alcoólica e suas consequências na sociedade expressas pela mídia impressa. Enfermagem em foco, 3(1).
Souza, E., Baldwin, J. R., & Rosa, F. D. (2000). A construção social dos papéis sexuais femininos. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(3), 485-496.
Swahn, M. H., Simon, T. R., Hammig, B. J., & Guerrero, J. L. (2004). Alcohol-consumption behaviors and risk for physical fighting and injuries among adolescent drinkers. Addictive Behaviors, 29(5), 959-963.
Tong, A., Sainsbury, P., & Craig, J. (2007). Consolidated criteria for reporting qualitative research (COREQ): a 32-item checklist for interviews and focus groups. International Journal for Quality in Health Care, 19(6), 349-357.
United Nations Office on Drugs and Crime [UNODC]. (2012). Relatório mundial sobre drogas 2012. Recuperado de: https://www.unodc.org/lpo-brazil/pt/drogas/relatorio-mundial-sobre-drogas.html
Viana, N. (2014). O significado dos rolezinhos. Revista Posição, 1(1), 4-8.

Citation
SANTOS, E. L.; NOTO, A. R. ; OPALEYE, E. S. . Álcool e relações de gênero: Motivações e vulnerabilidades na percepções de adolescentes. PSICOLOGIA EM ESTUDO (ONLINE), v. 23, p. 1-16, 2018.
Publication Date
Research Language

Português, Brasil

Country
Brasil

Attachments