Família é a base para a prevenção ao uso de substâncias, diz Frei Hans Stapel

Durante o 6º Congresso Internacional Freemind, realizado em dezembro de 2019 na cidade de Águas de Lindóia/SP, Frei Hans StapelFundador da Fazenda da Esperança e Consultor do Conselho Pontifício para os Leigos -  compartilhou com os congressistas sua experiência de vida e a importância da família na sua educação e falou um pouco também de seu trabalho na recuperação de usuários de drogas:

 

Quanto mais idoso eu fico, mais eu vejo a importância da família. Eu me lembro da minha infância muito pobre na Alemanha pós-guerra e de um dia em que eu quis tomar um sorvete com meus amigos numa sorveteria italiana recém-inaugurada. Minha mãe não tinha dinheiro para nos dar e, então, todos os meus amigos tomaram o sorvete e eu não.

 Aprendi, nesse dia, uma lição importante: não se pode ter tudo o que se quer.

Precisa ter na família uma clareza: se não tem, não tem!  e não emprestar ou fazer dívidas para dar o que não se pode aos filhos.

Uma outra ocasião, eu e meu irmão gêmeo queríamos participar de um acampamento e minha mãe não deixou, porque estávamos gripados. Então, resolvemos pedir autorização ao nosso pai.E fomos.

Ele nos atendeu, explicamos o que teria e que queríamos ir e ele nos perguntou: “Vocês já falaram com sua mãe? O que ela disse?”  Dissemos que ela não havia deixado.

Eles nos puxou as orelhas e disse: “Nunca mais tentem dividir papai e mamãe!”. Aí eu entendi que os dois são um só. Como isso foi importante! Até hoje valorizo esta unidade dos meus pais.

Não precisam ser pais perfeitos, mas precisam se amar e estar unidos.

Uma outra cena que foi fundamental para mim foi no tempo de advento. Nós nos reuníamos em casa, eu, meus irmãos, papai e mamãe, cantávamos e falávamos da vinda de Jesus. Num certo momento, abracei minha mãe e disse: “Mãe, como seria bom se não tivesse a morte. Poderíamos sempre ficar juntos”. Ela me olhou e disse: “Você é um grande egoísta, você só pensa em você... sem a morte eu não poderia nunca mais encontrar meus pais e tantos outros que já se foram”.

Eu era pequeno, mas naquele momento entendi que aquele desejo de unidade não é possível pensando apenas do nascer até o morrer. Precisa abrir os olhos para além da vida e saber que a morte faz parte da vida.

E aqui eu confesso: muitas atitudes que estamos assistindo no país: a corrupção e tudo o mais de ruim que vemos... parece que falta essa visão de que aqui tudo passa, que tem uma vida depois da morte e que precisamos nos preparar, porque o fato da morte muda tudo.

Aquele que hoje é muito importante, depois da morte será já não será mais. Este olhar para o outro, olhar para depois da morte, foi fundamental na educação que recebi de meus pais.

Quando cheguei ao Brasil fui trabalhar com drogados. Sem experiência nenhuma, nem estudo, nem títulos. Mas tinha o desejo de amar o próximo. Eu lembro os primeiros que chegaram e pediram ajuda, acolhi na minha casa e escutei... escutei noites afora e vi que atrás de casa drogado, está um grito de amor.

Como não tinha muito estudo de psicologia e de medicina, pensei: o que posso dar para eles, se eles não receberam amor?

Hoje 70% dos nossos pais são separados, ausência do pai, ausência da mãe, muitos são rejeitados, adotivos, 50% foram abusados sexualmente na sua infância, dentro do ciclo familiar...

Eu pensei: o que pode curar estes jovens? Só o amor. E onde encontramos este amor verdadeiro, puro, que não é um sentimento? Tem pais que dão tudo para os filhos, pensando que assim estão amando...

Qual é o critério para poder dizer: este é o amor verdadeiro? Eu aprendi ainda na Alemanha que Jesus é o professor e o mestre que nos ensina a amar. Amar a todos.  E como sei se estou amando ou se só estou com simpatia? Amar todos, amar sempre e não só quando se tem vontade, amar pelo primeiro e, o mais difícil, amar os inimigos.

Amar os inimigos e fazer bem a quem nos quer mal. Jesus se fez eucaristia para nos ensinar a amar e nos capacitar a perdoar. Você não nasceu para ser vítima eternamente.

Hoje eu defendo: precisamos da ajuda da psicologia, da medicina, mas, em primeiro lugar, precisamos aprender a amar. Porque o amor cura! 

O amor nos leva de volta à nossa origem: nós todos fomos feitos para amar e num certo momento rompemos com o amor. Fizemos uma escolha diferente e ali começou um caminho que nos leva à solidão.

Quantas ofertas o mundo tem para nossos jovens. Pouco se fala de amar. Pouco se fala de uma espiritualidade. Todos nascem para amar, independente de religião.

Mas todos precisam aprender a amar de verdade. Por isso eu sempre defendo que para recuperar a nossa juventude é preciso uma nova cultura: a cultura do dar, cultura do escutar, de pensar no outro e de fazer o outro feliz, porque assim eu vou ser feliz.

Agora, naturalmente, não basta só viver e recuperar os jovens. Precisa envolver as famílias e as famílias, às vezes, tem também grandes feridas.

Os pais também foram machucados e muitas vezes não receberam amor. E assim se repete a história. Todos os meses temos reuniões com os pais. E quando o filho termina a recuperação, continuam nos grupos chamados Esperança Viva. Continuam nos grupos de recuperandos com os familiares, para juntos ajudarem os outros.

Quem pensa no outro fica firme e não cai. Importantíssimo esse trabalho com os pais. Na minha terra tem algumas leis nos últimos anos que eu gostei muito. Minha sobrinha ficou grávida e nesse período não precisa trabalhar e por 2 anos após o parto ela pode ser mãe, amamentar e cuidar da criança. Tudo isso recebendo o salário. Depois ela voltou e ficou grávida de novo por mais 3 vezes...

Mas alguém pode dizer que isso custa caro para o estado...

Não, é mais barato que depois ter crianças doentes, que não são felizes, que não conseguem enfrentar uma dificuldade, que vão ter problemas com álcool e drogas, que vão se matar...

Porquê? Porque falta a confiança básica numa pessoa que é a mãe. Se a criança é amamentada desde cedo, quanto bem faz isso para a saúde. Se recebe este afeto e essa segurança e depois o afeto do pai, a criança vai fazer a diferença depois na sociedade. Isto é muito mais econômico do que a mãe ter que trabalhar, trabalhar, trabalhar...

Se nós queremos recuperar, precisamos voltar para nossa origem. Nascemos para amar. A felicidade está no outro e não no egoísmo.

Aqui no Brasil, precisamos de muita espiritualidade. Precisamos aprender a viver o evangelho.

Na nossa terapia, nós temos 3 pontos: vida em comunidade (sentimos a necessidade que os jovens sejam a família que muitas vezes não tiveram. Não temos muitas TVs e nem celular, para eles terem tempo para conversarem entre si.

Depois temos o trabalho. Não como terapia, mas como produção, para se manter. Se eles não conseguem se manter enquanto estão conosco, como pode se manter na sociedade, casar e ter filhos? Precisam aprender uma certa disciplina, obedecer, ter ordem, fazer com amor e empenho.

Envolvemos os pais, que não pagam nada, mas pedimos que os pais vendam uma cesta dos produtos que os filhos estão produzindo. Os pais, ao vender os produtos, falam de seus filhos e que estão em recuperação na fazenda.

Isso também ajuda os pais: falar sobre o assunto e não esconder. Vender as cestas não tem nada a ver com dinheiro: pedagogia de envolver os pais, sair de si e amar concretamente. Devemos parar com esse paternalismo assistencialista que estraga o outro. O outro se realiza se ama.

E o terceiro ponto é a espiritualidade. As autoridades querem que a gente mude isso, mas não vamos mudar nada, pois isso dá certo. Eu acredito que o amor vence tudo!

Para ter acesso à palestra de Frei Hans na íntegra, acesso o YouTube do Espírito Freemind. Lá você encontra todas as palestras do 6º Congresso Internacional Freemind.

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Brasil