A ESPIRITUALIDADE/RELIGIOSIDADE COMO FATOR DE PROTEÇÃO CONTRA O USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS NA ADOLESCÊNCIA

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ANDRÉ LUIS GRANJEIRO e PATRÍCIA AFONSO DE ALMEIDA
Publication Date

Espiritualidade como fator de proteçãoArtigo de revisão publicada na Revista debates em Psiquiatria - Jul/Ago 2017

Introdução
Muitos estudos focam em fatores de risco para o uso, abuso ou dependência de substâncias psicoativas, porém poucos se concentram em fatores que podem ser protetores. Comportamentos ligados à aprendizagem social e às normas culturais podem diminuir a vulnerabilidade aos problemas de saúde em adolescentes(1). A compreensão dos fatores de proteção que influenciam no melhor comportamento adaptado poderá levar à construção de campanhas de prevenção(2).

Adolescência
A adolescência é um período de modificações biopsicossociais em que o indivíduo em formação apresenta redefinições de papéis e funções(3). Nessa fase, há maior vulnerabilidade, com exposição a situações de risco, incluindo doenças sexualmente transmissíveis, delitos e uso de substâncias psicoativas. Os registros identificam o primeiro uso da palavra adolescência em 1430, referindo-se às idades de 14 a 21 anos para homens e 12 a 21 anos para mulheres(4). Há também estudos relacionando espiritualidade e uso de substâncias na faixa de transição da adolescência para a idade adulta jovem(5).

Droga
Ao longo de sua história, o ser humano buscou formas de diminuir seu sofrimento e meios de transcender e
alterar o estado da consciência, com fins religiosos, culturais, medicinais e de prazer(6). O custo dos
transtornos de uso de substâncias psicoativas envolve aspectos sociais, jurídicos e de saúde(7). O envolvimento com drogas é um processo individualizado, englobando uso experimental, uso casual e uma intensificação gradual da frequência e intensidade, aumentando o risco de desenvolver transtornos de uso de substâncias psicoativas(8). Não há fator determinante único, mas observa-se uma interação das características individuais e biopsicossociais(6). O transtorno do uso de substâncias psicoativas pode levar a prejuízos no desenvolvimento cognitivo (acadêmico, vocacional) e nas habilidades para lidar com as emoções(9).

Constructo espiritualidade/religiosidade
Na contemporaneidade, observam-se diversos estudos com interface da ciência e da saúde com a espiritualidade/religiosidade (E/R) como fator agregador na melhora clínica, independente da patologia(10). Os esforços atuais buscam definir a importância da espiritualidade como um fator de prevenção primária do consumo de substâncias psicoativas por adolescentes(11). A espiritualidade auxilia na construção da personalidade, inspirando valores morais, como o respeito e a preservação da vida, e promovendo comportamentos saudáveis e de busca de apoio social e autovalorização(12,13). A concepção de E/R é vista como um constructo na literatura médica e da saúde e tem sido associada com maiores índices de melhora e recuperação, configurando, assim, um significativo fator de proteção(14).

Fenômeno social

Tanto na infância quanto na adolescência, os seguintes fatores destacam-se como fatores protetores contra os transtornos de uso de substâncias psicoativas: estabelecimento de laços afetivos na família, monitoramento das atividades e amizades, construção de conduta social adequada, forte envolvimento com atividade escolar e/ou religiosa, informações sobre o uso de drogas e estabelecimento de uma meta ou plano de vida(12,15). Já os fatores de risco comumente identificados são a própria adolescência, precocidade de início do uso, condições socioeconômicas, meio permissivo, entre outras condições favoráveis ao uso de drogas lícitas e ilícitas(16). Destaca-se que na legislação brasileira, para menores de 18 anos de idade, até mesmo substâncias ditas lícitas são consideradas ilícitas, como, por exemplo, a bebida alcoólica e o tabaco(17). O fenômeno social de consumo abusivo de álcool e outras drogas acarreta, atualmente, mais custos com a justiça e a saúde, dificuldades familiares e notícias na mídia que outros problemas sociais(6).

Tratamento e prevenção

A conjuntura brasileira atual mostra aumento na precocidade do uso de substâncias psicoativas, segundo dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD II)(18). O modelo vigente de tratamento engloba atendimento ambulatorial, internação em comunidade terapêutica, internação intra-hospitalar parcial e integral, com abordagem psicológica, psiquiátrica, sistêmica, reabilitação cognitiva e grupos de autoajuda e religiosos(19).

Objetivo

O objetivo deste estudo foi revisar as evidências sobre o impacto da E/R no uso de substâncias psicoativas na população adolescente.

Metodologia

Na busca de artigos publicados em bases de dados científicas (PubMed, BIREME, SciELO) entre 2000 e 2015, utilizando as palavras-chave adolescente, droga, abuso de substância, espiritualidade, proteção, religioso e religiosidade, foram encontrados, no total, 115 artigos que obedeciam ao critério de inclusão: o impacto da E/R no uso de substâncias psicoativas na população adolescente. Os critérios de exclusão foram: artigos que não atingiam as expectativas de resultados relacionando uso de substâncias psicoativas, adolescência e E/R; artigos que delimitavam o conteúdo a temas de especificidade distinta, tais como família, escola, tratamento, comorbidades mentais e físicas (depressão, ansiedade, doenças sexualmente transmissíveis), gênero, atividade sexual, adulto, personalidade e violência.

Após discussão profissional, entre um psicólogo e uma psiquiatra, levando-se em consideração os critérios de inclusão e exclusão mencionados, foram selecionados oito artigos.

Resultados

Piko et al. observaram um elevado nível de consumo de álcool e um nível relativamente baixo de religiosidade entre adolescentes húngaros de 14 a 17 anos(20). Sanchez et al. pontuam que o envolvimento com substâncias psicotrópicas entre adolescentes de São Paulo pode ser impedido mesmo em ambientes com abundância de fatores de risco quando há incremento de fatores protetores na vida do indivíduo: estrutura familiar, espiritualidade, disponibilidade de informações acerca da dependência de substâncias e suas consequências e estabelecimento de perspectivas de futuro(11).

Segundo Ano & Vasconcelles, o manejo religioso pode ter a capacidade de proteger os jovens contra o envolvimento no uso das substâncias, na medida em que está relacionado com autorregulação e fatores psicológicos e sociais mediadores(21). Salas-Wright et al. apontam que elevados níveis de espiritualidade associam-se a taxas mais baixas de abuso

de substância em jovens de San Salvador, El Salvador(22). Já Amparo et al., em estudo com jovens do Distrito Federal, destacaram que as redes de proteção (família, escola e amigos) contribuem para o incremento das vivências resilientes, propiciando a construção de estratégias protetivas e socialmente ampliadas(23). Good & Willoughby observaram que adolescentes canadenses de Ontario que frequentam atividades religiosas podem ser melhor monitorados e supervisionados pelos pais e, como resultado, envolver-se menos com o uso de substâncias, independentemente de haver uma busca pessoal pelo sagrado(24).

Stewart observou o efeito de tamponamento moderado da espiritualidade sobre a utilização de bebidas alcoólicas e maconha em universitários norte-americanos entre 17 e 29 anos. Contudo, a espiritualidade não teve efeito contra o uso de cocaína, LSD ou ecstasy(5). Wills et al., em estudo realizado na área metropolitana de Nova Iorque(25), destacam que o tamponamento religioso poderia ocorrer porque a religiosidade afeta o significado e o propósito da vida, podendo também estar relacionado a valores e atitudes sobre o uso de substâncias.

Discussão

A relação entre o elevado nível de experimentação, uso, abuso e dependência de substâncias psicoativas e o nível relativamente baixo de religiosidade faz-se presente reiteradamente nos oito estudos selecionados por esta pesquisa. Foram observados também outros fatores de proteção, tais como família, amigos, grupo social, ambiente, resiliência, informação e perspectiva de futuro. Salas-Wright et al.(22), Piko et al.(20) e Good & Willoughby(24) convergem que a E/R é um fator de proteção e destacam o papel desempenhado pela crença, prática e tipo de religião professada pelos familiares como fatores protetores, mesmo em ambientes com abundância de fatores de risco. A E/R para o jovem influencia no início do uso, redução do mesmo e até abstinência de substâncias psicoativas. Ainda, Sanchez et al.(11) e Ano & Vasconcelles(21) destacam a sinergia entre E/R e estrutura psicológica e familiar como fatores de proteção na vida do indivíduo. Amparo et al.(23), além de concordarem com os outros autores, pontuam a relevância da rede de suporte social e resiliência individual em administrar a relação entre fatores de proteção e risco.

Todavia, é de relevância destacar que, para alguns indivíduos, a estrutura familiar pode ser um fator de risco, tanto pelas normas e costumes em relação à dependência química, comportamento transgressor ou codependência, quanto pelos aspectos de herdabilidade. Os aspectos de herdabilidade podem ser compreendidos pelo modelo epigenético, no qual a dependência química é considerada uma doença complexa, em que os efeitos genéticos são provenientes de vários genes, atuando em conjunto para a produção de uma situação de vulnerabilidade que, em conjunto com a ação ambiental, produz o fenótipo final(26).

Considerações finais

A saliência espiritual sinaliza uma ampla ligação do indivíduo com o seu meio, objetivando o bem-estar e o crescimento pessoal e de seus pares. O controle da religião e/ou a vivência da espiritualidade atuam diretamente para proteger o jovem contra o envolvimento com o uso de substâncias, na medida em que estão relacionados com autorregulação, fatores psicológicos, sociais, disponibilidade de informações acerca da dependência e suas consequências, estabelecimento de perspectivas de futuro e boa estrutura familiar. Assim, destaca-se a necessidade da elaboração de políticas públicas com esse enfoque.

Agradecimento

Agradecemos à acolhedora orientadora Silvia Pacheco, à estimada família e, especificamente, a José Mauro Granjeiro e Paulo Afonso Granjeiro, que nos auxiliaram no processo, pela parceria de trabalho.

Artigo submetido em 06/10/2016, aceito em 24/02/2017.

Os autores informam não haver conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.

Fontes de financiamento inexistentes.

Correspondência: Patrícia Afonso de Almeida, Passeio Prado, 202, Zona Norte, CEP 15385-000, Ilha Solteira, SP. Tel.: (18) 99781.5980. E-mail: pat [dot] afonso [at] yahoo [dot] com [dot] br

AUTORES:
ANDRÉ LUIS GRANJEIRO,

Graduando em Psicologia, Anhanguera Educacional. Especialista em Dependência Química pela UNIFESP, São Paulo, SP.

PATRÍCIA AFONSO DE ALMEIDA
Psiquiatra pela Faculdade de Medicina de Marília, Marília, SP. Especialista em Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP.

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